Índice Geral das Seções   Índice da Seção Atual   Índice da Obra   Seguinte: Capítulo 2

 

 

Tradução: Daniel M. Alves –
Revisão e edição:
Arnaldo Sisson Filho
[Embora o texto em inglês seja de domínio público, a tradução não é. Esse arquivo pode ser usado para qualquer propósito não comercial, desde que essa notificação de propriedade seja deixada intacta.]

 

 

(p. 03)

A VERDADE VIVA

 

NO CRISTIANISMO

 

Um Sumário da

DOUTRINA CRISTÃ ESOTÉRICA

dada ao Ocidente pelo

NOVO EVANGELHO DA INTERPRETAÇÃO

 

______________________

 

 

CAPÍTULO I

 

Cristo ou Caifás?

            

            1. (*) O FRACASSO do Cristianismo em regenerar o mundo ocidental – como fica evidente pelo perverso estado atual de degradação, de divisão e de derramamento de sangue – não se deve nem à Cristandade, nem ao mundo, mas àquele pernicioso sistema que, usurpando o título do Cristianismo, para impor-se à credulidade do mundo, tornou-se, na verdade, o inimigo implacável da religião de Cristo, ou seja, o sistema do Sacerdotalismo.

 

            O Cristianismo falhou, não por ser falso em seus princípios, ou inadequado como um meio para a regeneração do homem, mas porque logo após sua enunciação sofreu tamanhas distorções, subtrações e adições nas mãos de seus encarregados oficiais, que chegou ao ponto de abandonar suas verdades mais internas e fundamentais.

 

            Tanto isso é verdade que embora Jesus tenha sido crucificado sobre a cruz romana vinte séculos atrás, é certo que os princípios e a doutrina de Cristo têm sido crucificados ao longo dos

(p. 04)

séculos sobre a dupla cruz da Superstição e do Materialismo, erigida pelas mãos do Sacerdotalismo.

 

            E o Cristianismo, como a essência e a síntese dos princípios básicos subjacentes a todas as crenças religiosas, como a suprema necessidade dos tempos por um sistema puro e abrangente de vida e doutrina onde a religião, a filosofia e a ciência possam estar em harmonia e reunidos em prol dos mais elevados ideais espirituais, morais e intelectuais, como um meio de união consciente do indivíduo com a Fonte e o Ser de tudo que é – tal Cristianismo ainda aguarda, não por uma formulação, mas por reconhecimento e adoção.

 

            2. Tenhamos em conta que Caifás não foi o último de sua Ordem. O trabalho que ele fez tem sido sistematicamente continuado sob as mesmas sinistras influências até o ponto em que – sob a incitação ou exemplo daquela Ordem – o homem chegou a inundar a Terra de sangue, tanto animal quanto humano.

 

            Porém a longa história está se encerrando, pois o homem está gradualmente descobrindo a real natureza do ministério e serviço de Baal. E com a compreensão de sua origem e propósito virá a queda daquela Ordem amante do sangue.

 

            Muitos inimigos foram expostos dentro das instituições nacionais pela última e mais terrível guerra da Era Cristã, (1) assim como muitos ideais ignóbeis, muitas falsas crenças e erros – sociais, comerciais e políticos.

 

            Mas se a comprovada inadequação, má influência e falsidade de um Sacerdotalismo inventado pelos padres, afastado de toda realidade e desprovido de qualquer direito ao título de Cristão, forem finalmente trazidas à luz nos corações e mentes das nações ocidentais, então as principais causas e intenções daquela guerra serão reveladas.

 

            O perigo é que a reação à desacreditada fórmula de um decadente Sacerdotalismo possa precipitar os ignorantes e carentes de reflexão em um deserto igualmente árido de ateísmo ou indiferença; pois a Igreja não tem alternativa a oferecer.

 

(p. 05)

A Alma É Maior que os Dogmas

 

            3. A Igreja, de fato, tem tido o hábito de se vangloriar, com mais sinceridade do que perspicácia, de que ela tem apenas uma apresentação da verdade religiosa para toda a humanidade. (1)

 

            É verdade que a Religião é Uma só, e que por conseqüência há apenas Um Evangelho para todos os tipos e condições dos homens, ou, posto de maneira mais precisa, para o ser humano em todos os estágios de seu desenvolvimento mental, moral e espiritual. Porém, não é isso o que a Igreja quer dizer.

 

            Isso porque, se ela deseja ser lógica, é justamente essa lei óbvia, antiga e universal da evolução da alma, e a conseqüente gradação natural da família humana em diferentes níveis espirituais, o que a Igreja precisa negar, porque por meio da aplicação do processo eclesiástico de “salvação por meio do perdão dos pecados”, a Igreja é obrigada a admitir que um aborígine convertido é tão valioso aos olhos de Deus quanto o mais santo dos Papas, Arcebispo ou líderes da Igreja que já ocuparam cargos eclesiásticos, e que eles têm precisamente o mesmo brilhante futuro o aguardando por ocasião da morte.

 

            É precisamente essa a tentativa – irracional e impraticável – que faz uma Igreja que perdeu a chave para todos os mistérios ocultos de sua fé original, e que deseja aprisionar a mente do homem, a qual se encontra em muitos níveis diferentes, com suas próprias formas particulares de grilhões, os quais sempre afastam a simpatia e o apoio daqueles acima de certo nível de pensamento e desenvolvimento da alma.

 

Pedras em Lugar de Pão

 

            4. Periodicamente os líderes das Igrejas lamentam a diminuição de seus filiados e do comparecimento às cerimônias, a dessacralização do domingo, o afrouxamento da moral das pessoas,

(p. 06)

a carência de candidatos aptos para o sacerdócio, e assim por diante. Mas é sempre o povo – ou “o Diabo” – que são apontados como os culpados, mas jamais os rudes dogmas impingidos sobre a inteligência humana que se expande.

 

            E a possibilidade de que as mentes e corações dos homens tenham ultrapassado em muitos séculos as estreitas decisões – baseadas nas querelas de prelados pouco iluminados da Igreja – nem passa pelas idéias da filosofia eclesiástica. Pois para os que são dessa escola a verdade na Igreja foi definida para todo o sempre por uns poucos de seus falíveis e preconceituosos dignitários, que foram julgados aptos para legislar, em seus primitivos Concílios, acerca de documentos e doutrinas que eles não entendiam.

 

            No entanto, um exame dos Primeiros Pais da Igreja cristã mostrará que houve em um determinado período dentro da Igreja pelo menos três diferentes graus de filiação ou iniciação para os leigos, com ensinamentos adequados, em cada um deles, ao estágio de compreensão espiritual alcançado.

 

            Porém, com a gradual cristalização da Igreja na forma de uma organização, por meio da intrusão crescente do elemento sacerdotal, a luz foi obscurecida. E embora hoje em dia uma instituição educacional que ensina apenas conhecimentos elementares tais como a tabuada de multiplicação tanto para seus alunos mais jovens quanto para os mais graduados, sem dar instruções no que diz respeito à sua expansão ou sua aplicação, não sobreviveria por muito tempo. Não obstante, o Sacerdotalismo está fazendo algo muito próximo disso, com suas rígidas tábuas e números na escola da vida, na qual tanto as classes inferiores quanto as superiores de nossa humanidade são educadas para a realização da plena estatura do ser humano.

 

Uma Religião Idealmente Perfeita

 

            5. Para vermos que essa avaliação a respeito da natureza e da condição do Cristianismo oficial não é demasiado severa basta investigar quais devem ser os pré-requisitos de qualquer religião que alegue atender às reais necessidades da humanidade. Esses pré-requisitos foram convincentemente expostos por um profundo pensador, como segue: –

 

            6. “Para que a religião em si mesma possa ser

(p. 07)

uma religião idealmente perfeita ela não deve apenas satisfazer a cabeça e o coração, a inteligência e a consciência moral, a mente e a alma; mas também deve ser perfeitamente simples, obviamente razoável, logicamente coerente, auto-evidente, fundamentada na natureza das coisas, incapaz de ser concebida de forma diversa, absolutamente equânime, eternamente verdadeira e reconhecível como sendo todas essas coisas, invariável em sua operação, independente de todos os acidentes de tempo e lugar, pessoas e eventos, e ser comparável a uma demonstração matemática, no sentido de não precisar de testemunho ou autoridade que não sejam aqueles da mente.

 

            Ela não deve exigir para a sua eficaz observância qualquer coisa que seja alheia ou fora do alcance do sujeito individual, mas sim dentro de sua habilidade de reconhecer e realizar, com a única condição de que ele o queira.

 

            Essa religião deve ser de tal maneira que o capacite, por meio de sua observância, a transformar sua existência no grau mais elevado que ele possa conceber. E isso de uma forma tão independente de qualquer outro ser que não ele mesmo, como se ele fosse a única entidade pessoal no universo, e fosse ele mesmo o universo. É ainda necessário, uma vez que equânime, que lhe seja concedido tempo e oportunidade suficientes para a descoberta, o entendimento e a aplicação do processo.” (1)

 

            7. Aqueles que possam reconhecer a veracidade dessa penetrante e ampla definição observem primeiramente o quadro que ela apresenta dos pré-requisitos de uma religião ideal e, então, observem a distorção de sua realização tal como personificada – talvez inconscientemente – pelo padre, pelo teólogo, pelo ministro, naquilo que tem sido chamado de religião do Cristo.

 

NOTAS

 

(3:*) N.T.: Essa numeração indica os parágrafos no original, em inglês.

(3:1) O autor refere-se à Primeira Grande Guerra, à qual seguiu-se a Segunda Guerra Mundial, como um processo único, quase em continuidade uma à outra.

(5:1) A única religião da qual se pode dizer que oferece uma apresentação igualmente adequada à maioria da humanidade é o Budismo – embora em sua forma oficial ele também sofra do câncer do sectarismo. E o Budismo é uma religião que o cristianismo tradicional provavelmente rotularia de ser ateísta e de não ser uma religião de forma alguma, pois, ao examiná-la, ali não encontra nenhum “Deus” eclesiástico, bem como nenhum dogma fundamentado em bases “sobrenaturais” ou “miraculosas” – mas, de fato, tão somente a reta ação e o reto pensamento.

(07:1) Edward Maitland, em The Bible’s Own Account of Itself (O Relato da Própria Bíblia sobre Si Mesma), 2ª edição, capítulo III.

 

 

Índice Geral das Seções   Índice da Seção Atual   Índice da Obra   Seguinte: Capítulo 2