Anna Kingsford e o Vegetarianismo
Samuel Hopgood Hart
ANNA KINGSFORD nasceu em Maryland Point, Stratford, em Essex, em 16 de setembro de 1846. Tendo falecido em 22 de fevereiro de 1888, com a idade relativamente precoce de quarenta e um anos. Mas, durante sua curta vida, que obra ela realizou! Os benefícios dessa obra estamos colhendo hoje, embora muitos não saibam disso.
Meu objetivo ao escrever este artigo é trazer ao conhecimento dos leitores desta Revista alguns fatos relacionados à vida de Anna Kingsford, que para eles deveriam ser de especial interesse, e, de modo geral, chamar a atenção para seus ensinamentos a respeito dos direitos da Criação Animal e nossos deveres para com nossos irmãos menores. Como Apóstola da Humanidade, Anna Kingsford é incomparável. Sua atitude em relação ao movimento vegetariano em particular está resumida em suas próprias palavras inesquecíveis, como segue. Ela disse:
O que Anna Kingsford fez pela causa vegetariana e tudo o que ela representa jamais deve ser esquecido por aqueles que estão colhendo os benefícios de seu trabalho e que, como valentes cavaleiros, continuam sua luta contra a crueldade e a injustiça, pois “a justiça entre homens e mulheres, humanos e animais, eram seus principais objetivos. Toda injustiça era crueldade, e a crueldade era, para ela, o único pecado imperdoável.”
Felizmente, seu amigo e colaborador, o falecido Edward Maitland, deixou para nós, em sua última e maior obra, A Vida de Anna Kingsford, publicada alguns anos após sua morte, um registro de sua vida e ensinamentos, cujo valor e importância são incalculáveis. É a história de uma alma, um livro que Edward Maitland tinha certeza de que “educaria o mundo mais do que qualquer outra coisa, ao mostrar como a vida divina pode ser vivida e as faculdades abertas à verdade divina, e que para obter essa verdade, a vida divina deve ser vivida”. Que “a vida divina” aqui mencionada não é vivida por aqueles que derramam sangue ou comem carne foi afirmado de forma muito clara e contundente por Anna Kingsford em uma de suas palestras na obra O Caminho Perfeito, na qual ela disse:
Anna Kingsford (nascida Bonus) era a mais nova de doze filhos. Era filha de John Bonus, um próspero comerciante e armador da cidade de Londres. Herdou uma constituição frágil desde o nascimento, mas nasceu com uma missão. Em sua infância, marcada pela solidão e isolamento, seu maior deleite era se perder no jardim onde, como nos é dito:
Quando menina, Anna Kingsford lia muito e voltou sua atenção para a escrita. Mesmo criança, ela havia escrito poesia que havia sido admitida em várias revistas. Seu primeiro livro foi escrito aos treze anos. Seus escritos, ela disse, já vinham prontos, bastando apenas escrevê-los.
A faculdade de vidência, que se manifestara desde muito cedo, trouxe-lhe problemas com os pais, que a censuravam como se fosse responsável por eventos que ela havia previsto, e “demonstrações de faculdades anormais implicavam referências ao médico da família, com resultados ao mesmo tempo desagradáveis e ofensivos para ela”.
Quando, alguns anos depois, ela conheceu alguém em quem podia confiar, contou-lhe sobre as visões que tivera durante toda a vida e como os médicos haviam declarado que eram devidas à superexcitação do cérebro; e como ela, como muitos outros, sofrera muito com os médicos e não recebera benefício de nenhum. “Mas”, disse ela, “eu sei que não é fantasia. Tenho certeza de que vejo todas essas coisas; e não é causado por doença.”
Em 31 de dezembro de 1867, Anna Kingsford casou-se com seu primo, Algernon Godfrey Kingsford, que, pouco depois, recebeu ordens na Igreja da Inglaterra e posteriormente se tornou o Vigário de Atcham, perto de Shrewsbury; mas, por não simpatizar com o sistema religioso no qual ela havia sido criada “por sua dureza, frieza e mesquinharia, e sua total falta de relação com suas próprias necessidades espirituais, intelectuais ou emocionais”, e por ter sido receptora de algumas experiências psico-espirituais que a levaram nessa direção, ela, em 1870, ingressou na Igreja Católica Romana. Edward Maitland diz: –
“Deve-se afirmar, no entanto, em vista de seus desdobramentos subsequentes, que nenhuma questão havia surgido para ela entre as duas apresentações do Cristianismo: a eclesiástica e a mística. Ela aceitou a da Igreja Romana em oposição à Protestante, a Católica em oposição à sectária, a estética e emocional em oposição à inartística e formal; não ainda a eclesiástica e objetiva em oposição à espiritual e subjetiva. Pois acerca da existência dessa última apresentação alternativa ela ainda não havia se dado conta. Enquanto isso, ela manteve completa independência, tanto em mente quanto em ação, declinando de qualquer direção espiritual, e somente quando sua motivação interior assim indicou ela começou a participar dos ofícios da Igreja.”
Três anos depois, em uma carta a Edward Maitland, ela disse: “Por adoção e profissão, sou membro da mais conservadora das Igrejas, a Católica Romana, mas por convicção sou mais uma panteísta do que qualquer outra coisa, e meu modo de vida é o de uma frugívora.” Estando imbuída da ideia que a dominava a respeito de um trabalho que lhe estava reservado, ela impôs, ao se casar, como condição especial, que isso não a impedisse de seguir qualquer carreira que pudesse ser impulsionada na vida futura – uma condição que, deve-se notar, foi observada com a maior honra por seu marido durante toda a vida de casados.
Atcham, situada às margens do Severn e sujeita a inundações, revelou-se, em certas estações, um local de residência impossível para Anna Kingsford, que sofria de asma. Achando impraticável a residência permanente no presbitério e sendo impelida irresistivelmente a atividades para as quais a vida no campo não oferecia oportunidade, por volta de 1872, ela se tornou proprietária do The Lady’s Own Paper (O Jornal da Própria Mulher), editando-o ela mesma e dividindo seu tempo entre Londres e sua casa. Por esse meio, ela procurou dar expressão às suas ideias.
Foi no exercício de suas funções como editora deste jornal que ela tomou conhecimento da existência da vivissecção, e foi nas colunas de seu jornal que soou a primeira nota da cruzada que desde então tem sido travada contra as atrocidades do laboratório fisiológico. A partir de então, a supressão desta “Inquisição moderna” tornou-se um dos principais objetivos de sua vida.
Ela encontrou, assim, o que provou ser uma parte importante de sua missão e, para ela, o jornal havia cumprido seu propósito. Não havia sido um sucesso financeiro, e ela decidiu abandoná-lo. Ela já havia decidido dedicar-se aos estudos de medicina, com o objetivo direto de se qualificar para realizar a abolição da vivissecção, “que ela considerava com horror apaixonado como a mais vil das práticas, seja em relação à sua natureza ou aos seus princípios”. A questão da reforma alimentar também era um objetivo que ela tinha em vista ao tomar uma decisão sobre seu trabalho futuro.
Pouco tempo antes, sob a tutela de seu irmão, Dr. John Bonus, ela adotara o regime pitagórico de abstinência de carne, com tão manifesta vantagem para si mesma, física e mentalmente, que a levou a ver nele o único meio eficaz para a redenção do mundo, tanto em relação aos próprios homens quanto aos animais.
O homem, carnívoro e sustentando-se por meio de matança e tortura, não era, para ela, Homem em nenhum sentido verdadeiro do termo. Ela sustentava que “o que é moralmente errado não pode ser cientificamente certo”, e que buscar o próprio benefício, independentemente do custo para outros seres sencientes “é renunciar à própria humanidade – na medida em que não é a forma, mas o caráter que realmente faz o homem – ao ponto de rebaixar aqueles que o fazem ao nível sub-humano e ao infernal.”
Encontramos agora Anna Kingsford trabalhando seriamente para se qualificar e passar nos exames que tinha pela frente, e que precisava ser aprovada para obter o diploma de medicina que buscava em prol de seu trabalho. Era a primavera de 1873. Ela então morava em Hinton Hall, perto de Pontesbury, em Shropshire, quando recebeu de uma senhora que morava longe, uma estranha para ela, uma carta dizendo que ela – a autora da carta, que assinava como “Anna Wilkes” – havia lido com profundo interesse e admiração uma história escrita por Anna Kingsford e publicada no jornal The Lady’s Own Paper e, após lê-la, recebera do Espírito Santo uma mensagem para ela, que deveria ser entregue pessoalmente. E perguntava se a Sra. Kingsford a receberia e quando? Após um pouco de hesitação, a permissão desejada foi concedida e um encontro foi marcado.
Um relato do encontro foi feito por Anna Kingsford da seguinte forma: –
No mesmo ano, Anna Kingsford, tendo lido na revista Examiner uma notícia sobre um conto escrito por Edward Maitland, que a interessou, escreveu-lhe; e após alguma correspondência, ele aceitou um convite para a casa paroquial de Shropshire. A visita ocorreu em fevereiro de 1874 e provou ser um ponto de mudança na vida de ambos. Havia simpatia entre eles no plano espiritual. Eles viam a verdade da mesma forma. Haviam sido unidos por um poder que ambos reconheciam como divino, e para uma obra não menos divina que deveriam realizar juntos. Ambos sentiam que tinham uma missão e, como os eventos provaram, era uma missão conjunta.
Os detalhes da vida de Anna Kingsford como estudante de medicina na Universidade de Paris, para onde ela teve que ir para obter seu diploma, estão registrados na íntegra em The Life of Anna Kingsford (A Vida de Anna Kingsford) e, em menor extensão, em meu Prefácio Biográfico para a obra Addresses and Essays on Vegetarianism (Palestras e Ensaios sobre Vegetarianismo) de Anna Kingsford e Edward Maitland. Em uma carta, escrita em 1876, a Edward Maitland, relatando algumas de suas experiências no hospital, ela disse: –
Ao concluir seu curso de Medicina, Anna Kingsford obteve seu diploma e o direito de exercer a profissão de médica na Faculté de Paris, o que, como demonstra “A Vida de Anna Kingsford”, foi um privilégio que ela obteve por meio de enorme custo de trabalho e sofrimento, tanto físico quanto mental. Se não tivesse tido, durante seu curso, o benefício da ajuda e da companhia de Edward Maitland, que, a pedido de seu marido, lhe eram feitas de tempos em tempos, livre e altruisticamente, ela não teria aguentado a tensão, suportado as dificuldades e superado as tribulações que, por vezes, pareciam insuperáveis – que se interpunham em seu caminho.
Ao obter seu diploma de Medicina, ela, com a ajuda e o apoio de Edward Maitland, logo se tornou reconhecida como a principal oponente da vivissecção em sua época; e como a principal defensora de uma dieta humana, pura e sem sangue. Todos deveriam ler Addresses and Essays on Vegetarianism (Palestras e Ensaios sobre Vegetarianismo), de Anna Kingsford e Edward Maitland, um dos melhores livros sobre os princípios do vegetarianismo já escritos.
A respeito dos malefícios do consumo de carne, em uma nota a “Asclépio Sobre a Iniciação” em The Virgin of the World (A Virgem do Mundo), Anna Kingsford diz: –
Em um sermão escrito por ela para o marido, cujo texto é “Fale pelos que não tem voz” (Provérbios 31, 8), a respeito dos direitos dos animais em geral a um tratamento humanitário, ela disse:
Sobre as provações e dificuldades que a acompanharam em seu curso na Universidade de Paris, acima mencionado, Edward Maitland afirma: –
Alguns dos ensinamentos de Anna Kingsford derivaram da Iluminação Espiritual e outros de sonhos. As mais importantes de suas iluminações estão publicadas no livro: Vestida com o Sol (Clothed with the Sun); e de seus sonhos, em Dreams and Dream Stories (Sonhos e Histórias de Sonhos). Em certa ocasião, sob iluminação, foi-lhe dito que a salvação do mundo é impossível enquanto as pessoas se alimentarem de sangue. Em 1881, ela recebeu uma visão sobre Os Três Véus Entre o Homem de Deus, um dos quais era o “Sangue”, e em sua visão, foi-lhe dito que lhe fora dado retirá-los. Ela foi exortada a ser “fiel e corajosa”, pois “o tempo havia chegado” – e a ordem dada foi: “Afastai o Sangue do meio de vós!”
No mesmo ano, foi publicada uma edição em inglês da tese que Anna Kingsford havia escrito em francês ao final de seu curso em Paris. Foi publicada sob o título The Perfect Way in Diet (O Caminho Perfeito na Dieta), um livro que, embora tenha demorado alguns anos para ser publicado, foi, ao ser impresso, amplamente reconhecido como o melhor livro já escrito a defender uma dieta pura e sem sangue. Trechos dele estão contidos em Addresses and Essays on Vegetarianism (Palestras e Ensaios sobre Vegetarianismo), acima mencionado, que agora o substituiu. [NE: Os dois se encontram na íntegra, gratuitamente, no site www.annakingsford.com]
A última parte de sua vida foi dedicada a escrever e palestrar em nome dos ideais (incluindo o vegetarianismo) que sua missão, a qual sempre estava em sua consciência, implicava. Em 1883, ela e Edward Maitland empreenderam uma viagem apresentando uma séria de palestras em nome da Sociedade Vegetariana (Manchester), na qual visitaram muitas cidades, semeando a boa semente de seus ensinamentos – semente que agora está produzindo o que está se tornando uma grande colheita. Edward Maitland diz: –
Em 1887, problemas de saúde obrigaram Anna Kingsford a abandonar seu trabalho na imprensa, e em 22 de fevereiro do ano seguinte, em seu quadragésimo segundo ano, esta “boa e fiel serva” de Deus faleceu para continuar seu trabalho em outra esfera. Um obituário sobre ela e seu trabalho foi publicado no The Vegetarian Messenger de abril de 1888 (p. 96), e em agosto seguinte (p. 261) um poema In Memoriam (com ilustração) do falecido Dr. W.E.A. Axon.
Nesse artigo, procurei expor a posição de Anna Kingsford como vegetariana. Concluirei com um trecho de uma carta que ela escreveu para a revista Light em 1882, na qual dizia: –
NOTAS
